quarta-feira, janeiro 12, 2011

Tic tacs, Gelatina e Melancia.

Minha vó materna morreu antes de eu saber dar valor a ela.


Eu lembro de umas coisas que ela fez, que me contaram. Ela chorou quando prendeu minha perna na janela hahaha. Me deu minha primeira boneca. E queria que eu me chamasse Asperola também. Sim...

E eu lembro que o cabelo dela já era branco até onde minha memória alcança, que ela foi a única pessoa que me bateu na cara (dei língua pra ela, criancinha) e que meus tictacs não prendiam no cabelo liso dela. E ela adorava meus penteados e eu era a neta favorita. E que os olhos dela eram muito azuis. E que no final, eu não gostava mais dela. Mas não foi culpa dela. A doença não é uma boa parceira aos próximos. E ela era linda mais nova. Mesmo em fotos preto e branco. E ela passou o pão que o diabo amassou na juventude, com muitos filhos e pouco dinheiro. E ela tinha um gênio que eu herdei. E a cadeira de balanço dela ainda tá aqui.


E essa semana eu sonhei que a minha avó paterna morria.



Tipo assim. Eu não percebo as obviedades da vida. E foi meio que um choque perceber que um dia ela VAI morrer. Por que ela sempre esteve ali, sabe? E fez tudo por mim.
E eu me lembro mais dela. Minha avó também não teve uma boa juventude, mas não teve muitos filhos. Era uma negra bonita, e tá muito lúcida até hoje. Cada aniversário dela é uma festança. Eu odeio festa, mas vou neles. E eu lembro dela quando era criança. Ela tirava os caroços da uva e da melancia pra eu comer sem problemas. Queijo quando eu quisesse. Uma cristaleira completa. Ela me mimava, mas tinha pulso firme. A casa dela é uma relíquia. Gelatina tem na geladeira até hoje. Minha vó entende de tudo um pouco. Faz de tudo um pouco. Corta, pinta, costura, desenha, monta, dança, borda, tricota, limpa, cozinha, sabe mais de computador que a minha tia, que é mais nova! Minha avó tem uma TIA! E já lutou capoeira. Anda pra cima e pra baixo. Nunca tá em casa. Tem dois celulares. Quando eu vou lá, ela compra tudo que eu gosto. Quando eu preciso, ela tá perto. Se eu ligar, ela atende de prontidão. Sempre esteve aqui e é meio estranho, mas já to triste de antecedência.
Assim que eu sonhei, eu liguei pra ela, não contei que ela morria no sonho, só que sonhei com ela, um sonho estranho. Ela agradeçeu por eu me preocupar e falou que tava bem, rindo. E falou aquela coisa de vó "fica com Deus" e eu respondi "tá bom, vó." Aí ela "to bem sim, tá?" E eu "tá bom, vó" já com a voz embargada. E falei "tchau" e ela "tchau".
E assim que ela desligou eu chorei. Por que ela me liga sempre e eu sempre penso "ahh... minha vó." E agora eu pensei "um dia eu não vou mais ouvir a voz dela no telefone" e eu fiquei triste. Muito triste.

Penso nela constantemente, a última vez que eu fui lá, passou uma senhora do meu lado, de saia, e eu pensei "minha vó não usa saia frequentemente... ía ficar legal nela" e eu nunca usei aquelas frases "isso é .... minha vó"

E no auge do meu egoísmo eu queria que ela esperasse viva, até eu morrer, pra estar sempre comigo.

Eu não sou de sentimentalismo, mas acho que vou ligar pra ela mais vezes...