sexta-feira, junho 26, 2009

Traço, sangue, cor, detalhe e alma.



Quando você começa uma coisa, sua mente ainda tá restrita.
Você ainda não pegou as manhas, as idéias, o "como".
Quando eu começei a desenhar, qualquer coisa pra mim ficava bom... Meu cérebro escolhia "mulher" e eu desenhava qualquer uma.
Mas com o tempo, e como todas as coisas, você começa a ficar cada vez mais exigente. Aos 7 eu não queria mais qualquer rabisco e tentava forçar meu traço cada vez mais preciso. Ele era muito marcado e pra apagar era horrível, mas eu só soube disso depois...
Aos 10 eu já tinha parado de tentar achar um objeto que projetasse no papel a forma que eu queria (usar liquidpaper pra fazer o contorno da cabeça). Minha mão ficou mais solta, e meu traço mais fino e leve.
Aos 11 uma amiga minha chamada Letícia que eu admirava por desenhar absmalmente bem, me deu a dica de não fazer um traço só, ir riscando até chegar aonde queria... E eu o fiz.
Aos 12 eu entrei no curso de desenho, sexta série e eu vendia uns desenhos que eu fazia pra meninas da sala, aprendendo técnicas e outras coisas que me encheram de felicidade por um tempo. Eu nunca fico satisfeita pra sempre, e acredito que ninguém o faça. Eu queria mais, muito mais, minha criatividade era constante e geral dos 12 aos 14, mas, quanto mais o tempo passava com mais preguiça eu ficava. Passei dos 15 aos 16 não desenhando nada, tendo pulsos de criatividade que não eram o suficiente pra terminar um desenho, passei a me acostumar a usar referência*.
Mas aos 16 eu começei a perceber o que é desenhar, e o que é ser desenhista.
O desenhista desenha pelo amor à arte, pelo amor à expressão. Quando você desenha, o mundo muda, você muda de mundo. Desenhar é se desligar do corpo carnal.
É você não ouvir o telefone tocar, é você não ouvir nem ver o msn piscar, é você não ouvir ninguém te chamar, a música parar, a música pular, é você não ouvir a música de jeito nenhum.
Descobri que eu não preciso desenhar todo dia o tempo todo pra treinar o traço, ele vem. O traço é como um vinho, com o tempo melhora.
Eu, como artista, tendo um coração feito de tinta, lápis, carvão, pastel, papel, caneta, cor, som, letras, tecido, linha, eletricidade, sentimento, natureza, furacão, cozinha, línguas, livros, filmes e um mundo puro só meu... Afirmo enfaticamente que o pior pro artista é, ainda mesmo que sendo assim, o seu melhor: Seu corpo.
Nada é pior a um artista que a restrição do seu corpo, nada pior que querer cantar mais que a voz aguenta, querer chorar mais que o coração suporta, querer ver mais que os olhos conseguem, querer ouvir o que nem o ouvido escuta... Querer desenhar o que não consegue sair da cabeça.
Você quer todos os detalhes, e foi isso que eu aprendi dos 16 pra cá. Eu não desenho muito hoje em dia, mas me deixo pensar que ainda desenho bem. Hoje meus desenhos são feitos de detalhes e eu tenho os detalhes dos detalhes na cabeça, guardados, e se não sair como eu quero... Eu quero explodir, gritar, chorar, me libertar dessa parede humana que paralisa a alma do artista.
Sua mente quer um traço que suas mãos meramente humanas não conseguem alcançar.
Ser artista é colocar sua alma no trabalho, e a alma independente de quem seja, é perfeita. Nada menos, nada mais. E o seu trabalho sendo menos que perfeito parece que aquela alma não é sua, é uma alma alheia, jogada ao vento, aos trapos, ao chão, ao corpo.
E pensando em me libertar da barreira que me prende sem a total utilização da alma, eu me perco no cérebro, aonde meus desenhos de juntam com ela, brincam, rodam, em sincronia, em perfeição, em traço, sangue, cor, detalhe e alma. Felicidade em erupção em mim, e mesmo que por um breve momento, eu sinto a complexidade simplificando, as mãos movendo, o mundo ao meu redor sumindo.
E sou só eu e eu mesma. Meu eu artista, meu eu completo, meu eu imaginariamente real, meu eu feito da pureza. Nada mais do que o prazer de se auto completar, de não precisar de mais nada. E eu estou feliz, imersa uma, duas, três mil vezes, que seja. Submersa... em mim.
... Em um mundo puro só meu.

*Referência, pra quem não sabe, é copiar um desenho, ou algo assim.

1 comentários:

Jessie.. disse...

É sempre incrível como você se supera sem nem perceber.. eu lembro bem de como o seu traço melhorou, e como seus homens ficam melhores..

Beijos..

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